14 de dez. de 2011

Amor gnóstico / amor tântrico: suprasexualidade, liberdade, transcendência




















Sol e Luna

Oh Luna, por mim cingida
minha doce lua
Como eu
tornaste-te fina
forte
e poderosa
Oh Sol
tu és identificável sobre todos os outros
Precisas de mim como o galo precisa das galinhas.





Magia Sexual é o termo ocultista para designar diversas práticas sexuais usadas com propósitos mágicos, místicos ou espirituais.
A premissa fundamental da magia sexual é o conceito de que a energia sexual, ou libido, do organismo humano é a força mais poderosa que podemos manipular e que algumas práticas ocultas podem acumular, direcionar ou modificar esta energia de modo a atingir objetivos pré-determinados. Existem duas escolas principais de Magia Sexual, chamadas de o "caminho da mão esquerda" e o "caminho da mão direita".
O caminho da mão esquerda defende que o orgasmo deve ser adiado até que sua energia seja tanta que possa segundo a visão dos praticantes, alterar a realidade ou levá-los a estados alternativos de consciência. Os seguidores desta escola baseiam seus conhecimentos no trabalho original de Paschal Beverly Randolph, seguido de Theodor Reuss e mais tardiamente por Aleister Crowley.
Alternativamente, o caminho da mão direita defende que o orgasmo é a antítese da sublimação sexual. Neste contexto o orgasmo não é apenas adiado, mas superado em prol do que seus praticantes consideram energias superiores.
Wikipedia



“Portanto, nós consideramos o Amor santo, a religião de nossos corações, a ciência de nossas mentes. Não terá Ele o Seu Rito designado, Seus Sacerdotes e poetas, Seus criadores de Beleza em cor e forma para adorná-Lo, Seus músicos para saudá-Lo? Não deverão Seus Teólogos, adivinhando a natureza Dele, declará-Lo? Não devem mesmo aqueles que apenas varrem o terreno em frente do Seu templo partilhar através disto da pessoa Dele? Não deverá nosso cientista por as mãos Nele, medi-lo, descobrir profundezas, calcular seus cumes, e decifrar as leis de sua Natureza?
Também para nós de Thelema, que assim treinamos nossos corações e mentes para serem peritos engenheiros daquele arranha-céu, o Amor, o navio para voar até o Sol; para nós o acto de Amor é a consagração do corpo ao Amor. Nós queimamos nosso copo no Altar do Amor, para que mesmo o bruto possa servir à Vontade da Alma. Devemos então estudar a arte do Amor Físico. Não devemos frustrar ou trabalhar mal. Devemos ser frios e competentes como cirurgiões; cérebro, olho e mão, os instrumentos perfeitamente treinados na Vontade. Devemos estudar o assunto abertamente e impessoalmente,  devemos ler os tratados, ouvir lições, assistir demonstrações, obter nossos diplomas antes de entrarmos na prática.
Não queremos dizer o mesmo que o “cristão” quando dizemos “o acto de Amor”. Para nós não é o gesto grosseiro de um homem sofrendo um ataque, não é uma luta, um espasmo sem senso, uma súbita repulsão de vergonha, como é com ele.
Temos uma arte de expressão; estamos treinados para interpretar a alma e o espírito em termos do corpo. Não negamos a existência do corpo, nem o desprezamos; recusamos, porém, a considerá-lo sob qualquer outra perspectiva que esta: é o órgão do Ente. Deve, no entanto, ser ordenado de acordo com suas próprias leis; aquelas do Ente mental ou moral não se aplicam a ele. Nós Amamos; isto é, nós queremos unir-nos; então um deve estudar o outro, adivinhar toda borboleta-pensamento que passa, e oferecer-lhe a flor que ela mais aprecia. O vocabulário do Amor é pequeno, seus termos triviais; buscar novas palavras e frases é ser afetado.
Mas a linguagem do corpo nunca se exaure; nós podemos falar durante uma hora como uma pestana. Existem coisas íntimas, delicadas, sombras das folhas da Árvore da Alma que dançam na brisa do Amor, tão sutis que nem Keats nem Heine em palavras, nem Brahms nem Debussy em música, puderam dar-lhe corpo. É a agonia de todo artista, quanto maior ele é, maior o seu desespero, pois, não consegue expressar todas essas coisas. E aquilo que não podem fazer, nem uma única vez numa vida de ardor,  é feito em toda plenitude pelo corpo que, Amando, aprendeu a lição de como Amar.”
Aleister Crowley 












Mais de uma escola mística, budista ou vishnuísta, continuou a usar o maithuna yóguico-tântrico, e no entanto o "amor devocional" continuou a desempenhar um papel primordial. A corrente mística profunda conhecida por sahajiya, que é um prolongamento do tantrismo, seja este derivado do budismo ou do hinduismo, mantêm uma primazia pelas técnicas eróticas. Apesar disso, tanto ao nível do tantrismo como do hathayoga, a união sexual é compreendida como um meio para atingir a "beatitude suprema", a mahasukha, que não se deve alcançar jamais mediante uma emissão seminal. O maithuna surge-nos então como o desfecho de uma longa e árdua aprendizagem ascética. O neófito deve dominar perfeitamente os seus sentidos, e mediante este propósito deve aproximar-se gradualmente da "mulher devota" (nayika), e transformá-la, mediante um desenrolar teátrico iconográfico préviamente interiorizado, em deusa. Para isso, deve servi-la como um criado, durante os primeiros quatro meses; primeiro dormir no mesmo quarto que ela, e depois aos seus pés. Durante os quatro meses seguintes, apesar de a continuar a servir, deverá dormir na sua cama, ao seu lado esquerdo. Deverá dormir ao seu lado direito durante outros quatro meses, e depois abraçados, etc. Todos estes preliminares têm por objectivo a "autonomização" da voluptuosidade - considerada como a única experiência que poderá conduzir à beatitude nirvânica - e o domínio dos sentidos, assim como a detenção seminal.
No Navika-sadahna-tika é descrito todo o cerimonial em grande detalhe. Este é composto por oito partes, começando pela sadahna - a concentração mística com a ajuda de fórmulas litúrgicas; seguido da smarana (a recordação, o penetrar na consciência), o aropa (atenção dada a outras qualidades do objecto) quando se oferecem cerimonialmente flores à navika (que começa a tranformar-se em deusa); manana ("recordar a beleza da mulher quando ela está ausente"), que já implica uma interiorização do ritual. Na quinta etapa, dhyana (meditação mística), a mulher encosta-se à esquerda do seu devoto e é abraçada "de forma a que o espírito se consiga inspirar". Na puja, (o "culto" própriamente dito), é adorado o local em que a navika se senta, fazem-se oferendas e banha-se a mulher como se banha uma imagem de uma deusa. Durante este tempo, o praticante vai repetindo mentalmente fórmulas. A concentração alcança o seu grau máximo quando se leva a navika nos braços e se a deposita no leito, repetindo a fórmula: Hling kling kandarpa svaha. A união tem lugar entre "os deuses". O jogo erótico realiza-se num plano transfisiológico, porque nunca tem fim. Durante o maithuna, o yoguin e sua nayika incorporam uma "condição divina", no sentido em que não só experimentarem a beatitude, mas poderem também contemplar directamente a realidade essencial.
Não se deve esquecer que o maithuna não deve nunca terminar numa emissão seminal: boddhicitam notsrjet, "não se deve emitir o semen", repetem o textos. Caso contrário, o yoguin ficará à mercê da lei do tempo e da morte, como um libertino vulgar. Com estas práticas, a "voluptuosidade" exerce o papel de um "veículo", permitindo a tensão máxima e abolindo a consciência vulgar, inaugurando o estado nirvânico, o samasara, a experiência paradoxal da Unidade. Como já tinhamos visto - o samasara  obtem-se apartir da "imobilização" da respiração, do pensamento e do sémen. Os Doha-kosa de Kanha insistem constantemente neste ponto: a respiração "não sobe nem desce; não faz nem uma coisa nem outra, permanece imóvel".  "Quem a tiver conseguido aquietar na raíz do seu espírito mediante a identificação do gozo (samasara) num estado inato (sahaja), converte-se imediatamente num mago; não teme a velhice nem a morte."
É a "identidade do gozo" que ocorre durante a experiência incomensurável da Unidade (samasara), quando se alcança o estado de sahaja, o estado do não-condicionamento, da espontaniedade pura. Por outro lado, todos estes termos são de difícil tradução. Cada um se esforça por expressar o estado paradoxal da não-dualidade absoluta (advaya) que desemboca no mahasukha, a Grande Beatitude. Assim como o bramhan das Upanishades e dos vedas, o nirvana dos mahayanistas, o estado do sahaja é indefinível; não se pode conhecer a um nível dialético, apenas se poderá apreender através de experiências vividas. "O mundo inteiro, diz-nos o Hevajratantra, encontra-se patente na essência do sahaja, uma vez que o sahaja é a quintessência (svarupa) do todo. Esta quintessência é o nirvana para quem possuír o espírito (citta) puro." Poderemos chegar ao estado do sahaja após transendermos a dualidade; por essa razão, os conceitos de advaya (não-dualidade) e yuganddha (princípio da união) ocupam um importante lugar dentro da metafísica tântrica.
Esta dialética é o tema favorito da corrente madhyamica e de uma forma geral de todos os filósofos  mahayanistas. Mas o tântrico interessa-se particularmente pela realização (sadhana); deseja "realizar" o paradoxo expresso em todas as fórmulas e imagens que caracterizam a união dos contrários, deseja aceder através da experiência ao estado da não-dualidade. Os textos budistas têm popularizado sobretudo os "pares opostos": prajna, a sabedoria, e upaya, o meio de a obter; sunya, o vazio, e karuna, a compaixão. "Unificá-las" ou "transcendê-las" equivalia em suma aceder ao estado paradoxal de um bodhisattva; na sua sabedoria, este não vê mais pessoas (sendo que metafísicamente, a "pessoa" não existe; o que existe é um conjunto de elementos), e portanto, mediante a sua compaixão, o bodhisattva esforça-se por salvar as pessoas. O tântrismo multiplica os "pares opostos": sol e lua, Shiva e Shakti, idá e pingalá, etc., e como acabámos de ver, esforça-se por "unificá-los" mediante técnicas fisiológicas subtis e também através da meditação. É importante sublinhar este feito: independentemente do nível do que se consiga realizar, a união dos opostos representa a superação do mundo dos fenómenos físicos, a abolição de toda a experiência da dualidade.
As imagens utilizadas sugerem o retorno a um estado primordial de não-diferenciação: a unificação do Sol e da Lua traduz a "destruíção do cosmos" e, consequentemente, o regresso à Unidade primordial. No hathayoga, o indivíduo esforça-se por obter a "imobilização" da respiração e do sémen; é-lhe também pedido o "retorno do sémen", o que em si mesmo é um acto paradoxal, impossível de ser concretizado num contexto fisiológico "normal", dentro duma noção "normal" de cosmos. Por outras palavras, o "retorno do sémen" traduz, no aspecto fisiológico, a "transcendência" do mundo dos fenómenos, o acesso à liberdade. Não é mais do que uma aplicação prática do acto de "ir contra a corrente" (ujana sadhana), o processo regressivo (ulta) dos Nath-siddha, implicando uma total "inversão" de todos os processos psico-fisiológicos. No fundo não mais do que a misteriosa noção de varavrtti, amplamente documentada nos textos mahayanistas, e que no tantrismo também se designa por "retorno do sémen". O "retorno", a "regressão" implicam - para quem as realiza - a aniquilação do cosmos e consequentemente, a "saída do Tempo", o acesso à imortalidade. No Goraksa-vijava, Durga ("Shakti, Prakrti"), dirige-se a Shiva nos seguintes termos: "Como é possível, Senhor, que tu sejas imortal, e que eu seja mortal? Revela-me a verdade, Senhor, para que eu também me possa converter em imortal!" É aqui que Shiva revela a doutrina hathayoga. Sendo assim, a imortalidade obtem-se detendo a manifestação, o processo de desintegração; há que "ir contra a corrente", e reencontrar a Unidade primordial, imóvel, que existia antes da ruptura. É isto que fazem os hathayoguis ao unir o "Sol" com a "Lua". Este acto paradoxal efectua-se através de vários níveis; mediante a união de Shakti (kundalini) com Shiva no nosso próprio corpo, obtem-se a inversão do processo cósmico, a regressão a um estado indiferenciado de Totalidade original; "fisiológicamente", a conjunção Sol-Lua traduz-se por uma união de prana e apana, ou melhor, uma "totalização" da respiração, mediante a sua detenção. Em último lugar, a união sexual, mediante determinada postura (vajrolimudra), leva ao "retorno do sémen". 
Mircea Eliade, O Erotismo Místico na Índia





Quando Salomé perguntou quando as coisas referentes ao que ela tinha perguntado seriam conhecidas, o Senhor disse: Quando vocês tiverem pisoteado nas vestes da vergonha e quando os dois se tornarem um e quando o macho com a fêmea não é nem macho nem fêmea.
Clemente de Alexandria, Stromata